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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

O linfedema é um problema pouco valorizado pelos profissionais de saúde. No entanto é uma situação muito incapacitante para o doente e com reconhecido impacto na sua qualidade de vida.

 

A avaliação e o tratamento do linfedema são praticamente desconhecidos no nosso país. Os profissionais de saúde necessitam de ter formação adequada de forma a reconhecer os sinais iniciais de linfedema, para se começar imediatamente estratégias adequadas de tratamento.

 

Estes profissionais de saúde devem ter conhecimentos sobre a forma de utilizar estas estratégias, que são os pilares de tratamento no doente com linfedema: cuidados à pele, massagem linfática manual, terapia compressiva e exercício.


INTRODUÇÃO  
 

O Linfedema é uma situação de edema crónico resultante de uma insuficiente capacidade drenagem linfática (Internacional Society of Lymphology [ISL],2003).

 

Essa incapacidade física, que resulta em linfedema e que tem como resultado visível grande deformidade física, causa um enorme sofrimento no doente.

 

A prevalência dos edemas crónicos pode ser significativamente subestimada.

 

Uma abordagem do doente em equipa multidisciplinar, é sem sombra de dúvida a chave do sucesso no tratamento do linfedema. O tratamento ideal para o doente com linfedema requer uma cooperação estreita dos diferentes intervenientes no processo do tratamento tais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos.

 

A Sociedade Internacional de Linfologia (SIL) publicou como recomendações no tratamento do linfedema os seguintes procedimentos: cuidados meticulosos à pele, massagem linfática manual, aplicação de ligaduras com efeito compressivo e a realização de exercícios.

 

Foi o trabalho de uma equipa de saúde onde médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, conjugados com uma ajuda e envolvimento familiar em particular dos seus pais que fizeram deste caso de um doente com linfedema um caso de sucesso.
 

 

 

HISTÓRIA DO DOENTE  
 

O M.L. é um jovem de 22 anos, que mora numa pequena vila do centro do país com os pais.

 

O M. apresenta uma condição congénita com incapacidade muscular, e problemas na marcha desde os dois anos de idade, e acompanhado pela equipa da Consulta Externa de Neurologia e Fisioterapia do Hospital Pediátrico em Coimbra, com o diagnóstico de polineuropatia dismielinizante.

 

Desde os 5 anos de idade que se tem vindo a agudizar os seus problemas de marcha, com perda de força e atrofia muscular, culminando numa situação de perca de marcha aos 14 anos.

 

Desde esse momento passou a ser um jovem deprimido com necessidade de apoio psiquiátrico.

 

A partir do momento que perde a marcha, o M. aumenta significativamente de peso, tornando-se obeso (120 kg).

 

Aos 18 anos de idade, começou a apresentar edema importante em ambas as pernas ( o M. desloca-se em cadeira de rodas com manutenção das pernas pendentes), tendo sido referenciado para a cirurgia vascular, que não apresentou qualquer resolução válida para a situação.

 

Assim sendo a equipa de saúde do Hospital Pediátrico de Coimbra, pediu a minha colaboração na avaliação do M.
 

 

 

ENQUADRAMENTO DO PROBLEMA- LINFEDEMA 
 

O Linfedema é uma situação debilitante que pode causar consideráveis problemas físicos, psicológicos, sociológicos e económicos.

 

Apesar de não existir tratamentos que levem à cura deste problema crónico,  os tratamentos cirúrgicos que foram populares nos anos 1970 e 80 foram substituídos por  medidas conservadoras  tais como a terapia compressiva, a drenagem linfática manual, os exercícios físicos e os cuidados à pele.

 

Existem diferentes tipos de linfedema, com diferentes etiologias mas que no entanto não significam que existam diferenças significativas no que diz respeito à fisiopatologia, patologia ou tratamento (Földi and  Földi,2006).

 

O Linfedema é caracterizado por uma acumulação da linfa, resultando num edema crónico dos tecidos (Keen, 2008).

 

Este acontece como resultado de uma falha ou disfunção do sistema linfático. O edema pode ocorrer em qualquer local anatómico do corpo, mas é mais comum verificar-se nos braços e nas pernas (Green & Marson, 2006).

 

O aumento do tamanho dos membros pode interferir com a mobilidade e afecta a imagem corporal do doente (Best Practice for the Management of Lymphoedema, 2006).

 

Apesar do linfedema ser um problema crónico e sem cura no presente, com o tratamento adequado pode ser aliviado; no entanto, se for ignorado, pode progredir e piorar ao longo do tempo. O tratamento adequado pode também melhorar a qualidade de vida do doente e da sua família.

 

O linfedema pode ser designado de primário ou secundário, dependendo do curso da doença.

 

O linfedema primário envolve uma alteração congénita do sistema linfático (Keen, 2008).

 

O linfedema secundário ou adquirido, é o resultado do dano nos vasos linfáticos e/ou nos nódulos linfáticos ou por deficiência funcional dos mesmos  (Best Practice for the Management of Lymphoedema, 2006).

 

O linfedema que o M. apresenta é um edema dependente ou gravitacional.

 

Este deve-se ao posicionamento continuado do M. em cadeira de rodas.

 

O linfedema gravitacional, também conhecido por lymphostasis verrucosis (Harwood and Mortimer, 1995), ou edema dependente é uma situação frequente nos doentes que estão imóveis e que passem a maior parte do dia sentados numa cadeira (Green and Mason, 2006).

 

O edema desenvolve-se através de uma combinação de mecanismos:

  • Hipertensão venosa – a redução do fluxo quer venoso quer linfático devido à redução (ou mesmo ausência) do funcionamento da bomba muscular;

  • Aumento da permeabilidade capilar e formação do edema.

 

O rápido aumento do tamanho das pernas, favorece o aparecimento de linforreia na pele do M., isto porque a pele é subitamente esticada, distendida.

 

Um diagnóstico preciso de linfedema é premente, antes de se planear o tratamento  mais adequado (Foldi et al, 2005).

 

No caso particular do M. e depois de tudo o que foi referido, não existem dúvidas da causa do seu linfedema.

 

 

 

PLANEAMENTO DOS CUIDADOS ADEQUADOS NO LINFEDEMA 
 

O tratamento vai-se basear na prevenção da formação do edema e no controlo de edema prévio.

 

Um tratamento efectivo do edema crónico requer uma abordagem centrada no doente, talhada às necessidades individuais do doente.

 

Os princípios do tratamento do linfedema têm por base as seguintes pedras angulares (King, 2006):

  • Cuidados à pele

  • Drenagem linfática manual

  • Terapia compressiva

  • Exercício

 
 

 

CUIDADOS À PELE 
 

O M. apresentava linforreia em ambas as pernas, de zonas onde a pele seca e frágil acabou por apresentar quebras/soluções de continuidade.

 

O edema severo de ambas as pernas é mais acentuado abaixo do joelho com a perna direita a apresentar maior dimensões que a esquerda (Foto 1).




Foto 1 - Antes do tratamento


O formato da perna encontra-se distorcido com afundamento da pele com pregas cutâneas a nível dos tornozelos, com edema importante do pé e de todos os dedos.

 

O M. foi avaliado previamente pela cirurgia vascular, que não encontrou sinais de doença arterial.

 

A mãe do M. foi ensinada a observar diariamente a pele das sua pernas, pesquisando sinais de solução de continuidade, com perda de liquido ou feridas, e lavar todos os dias a pele com um sabão suave, seguido da aplicação de um creme hidratante, de manhã e à noite.
 

 

 

DRENAGEM LINFÁTICA MANUAL

 

Um tipo de massagem específica, denominada como drenagem linfática manual é um pilar essencial na redução do linfedema. O objectivo da massagem é estimular o movimento dos fluídos para dentro dos vasos linfáticos e retirá-los dos tecidos, para que sejam drenados normalmente pelos nódulos linfáticos.

 

A drenagem manual linfática é uma forma suave de massagem que deve fazer parte integrante do tratamento do linfedema (Doherty, 2006).

 

Tive o privilégio de participar numa formação teórico-prática sobre linfedema onde o fisioterapeuta Oliver Gültig, com o qual aprendi a técnica da massagem e que tenho vindo a praticar.

 

O M. foi convidado a participar nessa formação, representando o doente com linfedema e foram dadas orientações precisas acerca da massagem a aplicar na sua situação.

 

O M. iniciou a massagem de drenagem linfática manual, todos os dias, antes da aplicação das ligaduras, e ela foi ensinada à fisioterapeuta que acompanha diariamente o M., assim como à mãe para que ela a pudesse realizar ao fim-de-semana.

 

 

 

TERAPIA COMPRESSIVA

 

O M. iniciou a aplicação de ligaduras em sistemas multicamadas, inelásticas.

 

Em ambas as pernas aplicava-se ligaduras, em sistemas multicamadas, sem elasticidade, que se iniciavam a nível dos dedos dos pés.

 

Este procedimento foi partilhado com a fisioterapeuta e com a mãe, de forma a capacitá-las na aplicação das ligaduras- quanta mais camadas forem aplicadas em camadas, maior vai ser a pressão sub-ligadura  obtida (Penzer, 2003).

 

As ligaduras não elásticas não apresentam qualquer elasticidade.
 

 

 

EXERCICIO

 

O M. foi ensinado a iniciar alguns exercícios com as pernas, com a colaboração da mãe – esta segurava nas pernas do M. e elevava-as, uma de cada vez e em seguida as duas juntas; este movimento era repetido 10 vezes a cada hora. 
 

 

 

AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS

 

Foram avaliadas as medidas de ambas as pernas na 1ª visita (Foto 1) e depois cerca de 8 semanas após todo o tratamento (Foto 2), e houve uma redução de 30 cm no tornozelo e na barriga da perna direita e houve uma redução de 15 cm no tornozelo e barriga da perna esquerda.

 

Esta redução permitiu a M. uma melhor mobilização e até participação mais activa nos exercícios (à medida que o edema reduzia o M. conseguia sem ajuda a elevação das pernas).

 

Nesta altura foram retiradas medidas às pernas e feitas meias à medida, para manter o edema controlado e evitar o reaparecimento do mesmo.

 

O M. achou que as meias eram muito confortáveis e fáceis de calçar (Foto 3)




Foto 2 - Após Tratamento




Foto 3 - Com meias aplicadas


CONCLUSÃO 
 

O Linfedema é um problema não reconhecido em Portugal, com muita falta de informação sobre o assunto.

 

Existem orientações internacionais para o tratamento efectivo do Linfedema.

 

Os doentes que apresentem edema crónico nos membros inferiores, necessitam de uma avaliação holística, de forma a determinar a causa e a planear os cuidados mais apropriados.

 

Como foi demonstrado através deste caso, os profissionais de saúde dos cuidados de saúde primários podem prestar cuidados específicos a estes doentes.

sinto-me: bem
publicado por Abel Silva às 14:19

De Ana Pereira a 12 de Setembro de 2011 às 17:27
Só quero deixar um comentário positivo ao documento que foi publicado, pois esta doença é uma doença que só quem passa é que pode dizer como ela é dolorosa para a pessoa. Digo isto porque aos 14 anos foi me diagnosticado um linfedema nos membros inferiores, e agora com 22 anos sinto que perdi muito da minha adolescencia devido a esta doença, e gostava sinceramente que houvesse mais meios para tratamento, e que os médicos nao nos "abandonassem" com tanta rapidez por nao verem resultados nos tratamentos. O meu caso nao é certamente tao grave como o do M. mas mesmo assim custa muito viver com esta limitação.
Obrigado
Atenciosamente
Ana

De Juceli Fernandes a 4 de Março de 2012 às 20:45
Li comentário que foi feito sobre o linfedema e fico triste por ver que os médicos não dão muita importância para o problema e, quando achamos algum terapeuta que faz a massagem específica, é muito caro e não podemos dar continuidade para o tratamento.
Tenho linfedema e com a idade estou percebendo que está agravando...
Parabéns a vocês que nos mantêm informado sobre a evolução do tratamento.

De gianne a 6 de Setembro de 2012 às 06:23
Tenho 43 anos e até hoje não havia tido tanta informação como neste post.Agradeço a que o fez e parabenizo.Fui diagnosticada com 6 anos de linfedema na perna direita e se estende até o glúteo direito também,já tive 2 erisipelas e tenho muito problemas com roupas (calças,shorts) vivo disfarçando e isso me tras problemas de baixa auto-estima,pois me recuso a ir a praia,piscina.....enfim,e em fases de pré menstruar a piora do inchaço é muito visível,sem falar na sensação de peso e dores.Trabalho por muitas horas sentada e isso me causou mais preocupação ao saber da piora,então,terei que mudar meu estilo de vida tbm...mas,mais uma vez sou grata pelas informações postadas.Deus o abençôe!

De Sandra Ferreira. a 16 de Outubro de 2012 às 00:33
Há dois anos tenho edema e dor na perna esquerda e desde então os médicos tratam como se fosse tendinite.
Na última piora fui internada como se tivesse trombose.
Diagnóstico difícil o dessa doença. Comecei a fazer drenagem com fisioterapeuta mas eles parecem nåo saber o que estão fazendo direito. As meias de compressão são caras e de pouca durabilidade. Ainda não senti melhora. Mas não vou me deixar abater.

De VANESSA SALES ALMEIDA a 3 de Julho de 2013 às 00:27
EM MIM FOI DIAGNOSTICADO LINFEDEMA AO 19 ANOS ,MAIS NÃO DEI MUITA CREDIBILIDADE AOS CONSELHOS QUE OS MÉDICOS ME DERAM, NA ÉPOCA TINHA CONVÊNIO,MAIS NÃO TINHA CONDIÇÕES DE PAGAR O TRATAMENTO ,GOSTARIA DE SABER SE EXISTE ALGUÉM QUE FAÇA ESSAS DRENAGENS LINFÁTICAS COM UM CUSTO MENOR


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